Poucas coisas me custam tanto na minha vida profissional como a vigilância de exames. A minha sanidade, já de si sempre periclitante, definha naquele par de horas em que nada pode acontecer. É a altura do surgimento de universos paralelos, de pensamentos distorcidos, retorcidos, contorcidos , eu sei lá! Fica de seguida um relato pseudoimaginário de dois seres em sofrimento à espera que o tempo passe. Quem espera desespera...
"Pássaros a chilrear no bucolismo do campo, um exame que começa e nunca vai acabar, um enxame biológico que passa ao lado do compartimento da Rainha que coadjuva, um zangão fora de prazo que visita inquieto, a colmeia inalcansável, pé ante pé, a névoa que o anuncia, 9.10, 9.47, 10.40. Podiam ser horários de comboio mas a ferrovia passa longe, combinações numéricas que nunca hão-de abrir nenhum cofre. O zangão desespera, o prazo de validade acabou.
Duas almas mal dormidas, apalpam bilhetes de identidade ao som de um taco que falta no chão, toc toc, diz ele. As cortinas esvoaçam, trazem o fresco de encontro ao mofo. A
Geheime Staat Polizei segue as intruções, as falhas que não podem existir mas que vão lá estar sempre, riem-se gozando uma liberdade efémera mas decisiva. Podem rir e nós não, podem falar e nós não, podem beber água e nós morremos à sede, esperando o líquido quenunca chegará. Esqueceram-se de nós. Fiona, Master Confort, Horas Cómodas, Tatiana Fabri, Alcaide, Crubin, CGS. Podiam ser nomes de strip clubs ou de travestis de aspecto decadente mas são caixas de sapatos, nomes de estações passadas, fábricas arruinadas. Quinze ao todo, jazem esquecidas em cima dum armário. Balas de bostik povoam as paredes, encaixam bem no invólucro que segundo dizem foram fabricados em Israel, a paz anda de mãos dadas com o inimigo. Seis candeeiros com duas lâmpadas cada suportados por setenta e nove transversais seguram o tecto. Um dia vai cair! Não sabemos quando mas vai. Tudo o que sobe desce e eles já estão lá há algum tempo. Um dia vai chegar a hora deles, se calhar mais depressa do que a nossa, que se perdeu. Lá vem o zangão outra vez. As paredes suam "Amo-te" escritas em várias caligrafias, amores que morreram antes de nascer. O zangão não acredita que também ele passou ao lado. Um satélite com asas descreve círculos perfeitos gozando a sua vida curta, vai morrer vítima de uma mão furiosa que não admite interrupções. Maciço, gera dúvidas, como se escreve isto? De alguma maneira há-de ser. Quem tira este cheiro a alcatrão que reveste o telhado, incomoda-me, preferia um qualquer verniz de uma mulher bonita que pintasse as unhas ao som do nosso desespero aqui.
Quase a faltar um ano para a boda, a Maria Guinot vai ensaiando ao piano os acordes de "Silêncio e tanta gente", tem de estar tudo certinho porque o noivo merece. Também trocava a minha vida por um dia de ilusão. Felicidades parece ela dizer baixinho, oxalá isso ajudasse a passar o tempo! Continuamos a contabilizar, as contas batem certo, aí vem ele outra vez. O porteiro queria uma T-shirt a dizer Staff, ficava bem, já sabe cruzar os braços, recebe um elogio do colega, só lhe faltam 30 cm e algum paleio. Tem esperança de lá chegar.
Um vegetariano reclama perante uma ementa mostruosamente carnívora, come batatas a murro que também faz bem à saúde, não adormeças enquanto não chega o teu pseudobacalhau! Relaxa, dá um passeio pela Quinta, tenta saber o nome dela, que eu também ainda não sei! E se de repente aparecesse aqui o Roberto Carlos a cantarolar, vestido de branco demodé? Será que o coração aguentava. A Rainha acha que não, o zangão, esse, tinha esperança que sim.
Munch desenha o "O Grito", expoente máximo de um qualquer sofrimento que podia ser o meu, a ampulheta vira, o fim está mais próximo, sabemos que sim, todas as horas ferem, a última mata, já diziam os romanos que todos consideram loucos. Lá fora a vida vai acontecendo e nós aqui, múmias de um qualquer museu egípcio, secas pelos tempos imemoriais.
Nunca me ensinaram que um bom vigilante assina sempre pelo lado direito, aprendi sozinho a ver os empregados de mesa. "Tell me more" repete uma Olivia Newton-John a quem o tempo não perdoou.
Uma maratona que se transforma nuns penosos cinquenta kms marcha! Acabou!"
Reflexões de um sonho que podia ter sido... e que foi mesmo!
Acabou!