canhonapreta

segunda-feira, julho 18, 2005

Tomé e Sabrina cantam Boys Boys, Dois Dois

O meu fascínio por canções dos anos 80 não pára de surpreender nunca! Hoje o meu filho Tomé deu uma ajuda ao protagonizar um dueto com uma fogosa italiana de nome Sabrina que fez furor nas charts europeia com um tecno-trash de nome "Boys". Vinhamos da praia, como de costume a ouvir música. Desta vez calhou um disco que junta algum dos êxitos dos longínquos eighties. Qual não foi o meu espanto quando a Sabrina começa a cantar o puto animou-se e quando chegava ao refrão e ela cantava (elogio muito grande para a Sabrina) "boys, boys...", o Tomé no banco de trás acompanhava "dois, dois..."! Fartei-me de rir. Se o miúdo soubesse do famoso vídeo em que ela saltava numa piscina de um hotel a cantar isto com uma das mamas tamanho 44 (pelo menos) a saltar para fora do biquini então é que cantava afinadinho!

banda sonora: Um delírio de disco, banda sonora do grande filme que é "Casamento debaixo de chuva" ("Monsoon Wedding")!

sexta-feira, julho 15, 2005

Never Let Me Down Again

Tenho ouvido muito Depeche Mode. É um grupo a que vira que não volto regresso furiosamente. Agora em virtude de ter dado uns discos deles ao uns amigos, regressei. Têm acompanhado as minhas recentes insónias, madrugadas dentro, desesperado por querer dormir e não conseguir. Vêm-me à cabeça o fabuloso "Lost in Translation" . Ontem ouvi o "Never Let Me Down Again" para aí umas dez vezes seguidas
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que os ouvi. Corria o ano de 1986/87 e tinha chegado à televisão portuguesa uma lufada de ar fresco. À tarde na RTP2 dava o "Countdown" um programa de um holandês de nome Adam Curry, um projecto, pré-mtv na Europa com o nome de Music Box. Era costume os grupos irem actuar perante uma plateia não muito numerosa. Um dia chegou a vez dos Depeche Mode! Tinha já cerca de seis anos de carreira mas eu nunca tinha ouvido falar deles. Foi amor à primeira vista, uma relação que leva já quase vinte anos de fascínio. As duas canções que tocaram: "A question of lust" e "A question of time"! Lindas! Soavam tão modernas...
A partir daí algumas fases da minha vida tiveram a chancela DepecheMode!
O título deste post fala da minha canção preferida dese grupo. Nunca analisei em pormenor de que fala a letra. Há quem goste de cantar as canções mesmo não sabendo a letra bastando para isso mexer os lábios de forma convicta, eu gosto de ouvir as canções e imaginar que elas falam daquilo que eu acho!
Para mim, "Never Let Me Down Again" , é sobre a amizade, título desta canção foi sempre para mim a principal directiva que deve de existir entre amigos. Nunca devemos deixar os nossos amigos cair, é a máxima que sempre retirei daqui.
Depeche Mode, para a minha pessoa é Verão, céu azul, se tivesse que escolher uma cor para eles seria o verde, claro, alegre, apesar de as canções a maior parte das vezes não transmitirem isso. Talvez isso se deva ao facto de durante dois ou três verões em que frequentava bastante a piscina municipal de Subserra (junto de Alhandra), um local magnífico instalado em plena Quinta de Subserra (teria outro nome que não me recordo), várias vezes centenária. Mesmo quem nunca lá tenha estado poderá já ter visto na televisão por ocasião da transmissão dessa mítica série portuguesa de nome "Duarte & Co". Era a casa de um dos arquinimigos do Duarte, o Lucífer!
Durante algum tempo, era o som ambiente que se ouvia na piscina, em virtude de ser um grupo do agrado do banheiro que tomava conta das piscinas. Embalaram flirts, pequenos delitos amorosos, insignificantes, vistos do presente, mas que pareciam conquistas selváticas. A água azul, a relva e as flores do jardim para onde o pessoal se escapulia com as meninas, o palácio majestoso, tudo isto embrulhado no som electrónico depechiano resultava num todo deveras agradável!
Há algum tempo em conversa com uma amiga, ela dizia que Depeche Mode lhe lembrava o sul de Espanha. Aceito perfeitamente! Consigo imaginar "Just can't get enough" numa qualquer discoteca de Marbella a arrebentar pelas costuras, com corpos suados a arder em desejo; "Personal Jesus" numa qualquer quinta de interior do sul espanhol (Ronda por ex.); "Enjoy the silence" sentado num dos miradouros da estrada de Tarifa, olhar o Mediterrâneo, espectacular, com África ali tão perto; " I feel you" enquanto se caminha nas dunas das praias de Tarifa ou Zahara de los Atunes, em dias ventosos, óptimos para as dezenhas de windsurfers que sulcam o mar; "Never let me down" na marginal que acompanha Nerja, essa do Verano Azul de outros estios; "Strangelove" entre dois enamorados, num enlace tão louco e rápido com efémero; "Police of Truth" numa Torremolinos decadente, pejadas de bifes beberrões e desconcertados; "Only when i lose myself" no esplendoroso Alhambra de Granada (uma das palavras castelhanas mais bonitas e que significa somente romã, que é também umas das mais bonitas da língua portuguesa) com a Sierra Nevada ao longe.
Podia falar de muitas outras canções de Depeche Mode, muitos outros locais. A poucos dias de partir para Inglaterra, a história repete-se. Artilhei o Ipod com uns quantos discos de Depeche Mode, especial atenção para o triplo "Remixes". A côr do Ipod...verde depeche mode!

sábado, julho 09, 2005

Uma paragem de autocarro

Ontem enquanto guiava descontraidamente a caminho do trabalho, algures entre Leiria e Pombal, fixei a minha atenção numa paragem de autocarro. Aquele momento, parado, à espera que o autocarro arrancasse, teletransportou-me de volta ao meu oitavo ano de escolaridade, vivido (sobrevivido?) em Arruda dos Vinhos (outrora polo de ruralidade, produtora do líquido de Baco, agora em crescimento desalvorado à laia de uma auto-estrada daquelas de número grande).
Corria um fim de tarde igual a tantos outros. Como normalmente, tinha tocado para a saída, havia cinco, dez minutos e a canalha aglomerava-se na paragem de autocarro (na altura chamava-lhe carreira, agora sou mais fino) à espera do transporte para a escola. Não vou perder aqui tempo a descrever a dita paragem com ferro de cor laranja e plásticos de qualidade duvidosa que dificilmente resistiam ao estio.
Voltando ao acontecimento, estava em em cima do ombral do passeio, distraído (para variar com qualquer coisa que me tinha despertado a atenção) quando de repente a minha visão foi substituída por um clarão que me abalroou a consciência. Fui projectado para trás ( um, dois metros no máximo) e encostado ao muro deslizei devagarinho até me sentar. Posso dizer que não vi estrelas. Vi constelações inteiras!!! Quando abri os olhos, alguns dos meus colegas olhavam para mim e dizia-me coisas do tipo: " Epá, estás bem?" Que parvoíce! Como se uma pessoa pudesse estar bem depois de ter sido cilindrado por um autocarro que subiu o passeio e me acertou em cheio com o espelho daqueles metalizados, de metal. Nunca mais me esqueci daquelas camionetas da Rodoviária Nacional com bancos castanhos claros.
Voltando ao presente,e enquanto o autocarro arrancava daquela aldeia sita no eixo Pombal-Leiria, recordei o galo enorme e as palavras do condutor quando entrei na camioneta: "O menino está bem? Aleijou-se?". Olhando para ele tive vontade de dizer: "Não! Foi só impressão sua!"

domingo, julho 03, 2005

A insustentável leveza do exame

Poucas coisas me custam tanto na minha vida profissional como a vigilância de exames. A minha sanidade, já de si sempre periclitante, definha naquele par de horas em que nada pode acontecer. É a altura do surgimento de universos paralelos, de pensamentos distorcidos, retorcidos, contorcidos , eu sei lá! Fica de seguida um relato pseudoimaginário de dois seres em sofrimento à espera que o tempo passe. Quem espera desespera...

"Pássaros a chilrear no bucolismo do campo, um exame que começa e nunca vai acabar, um enxame biológico que passa ao lado do compartimento da Rainha que coadjuva, um zangão fora de prazo que visita inquieto, a colmeia inalcansável, pé ante pé, a névoa que o anuncia, 9.10, 9.47, 10.40. Podiam ser horários de comboio mas a ferrovia passa longe, combinações numéricas que nunca hão-de abrir nenhum cofre. O zangão desespera, o prazo de validade acabou.
Duas almas mal dormidas, apalpam bilhetes de identidade ao som de um taco que falta no chão, toc toc, diz ele. As cortinas esvoaçam, trazem o fresco de encontro ao mofo. A Geheime Staat Polizei segue as intruções, as falhas que não podem existir mas que vão lá estar sempre, riem-se gozando uma liberdade efémera mas decisiva. Podem rir e nós não, podem falar e nós não, podem beber água e nós morremos à sede, esperando o líquido quenunca chegará. Esqueceram-se de nós. Fiona, Master Confort, Horas Cómodas, Tatiana Fabri, Alcaide, Crubin, CGS. Podiam ser nomes de strip clubs ou de travestis de aspecto decadente mas são caixas de sapatos, nomes de estações passadas, fábricas arruinadas. Quinze ao todo, jazem esquecidas em cima dum armário. Balas de bostik povoam as paredes, encaixam bem no invólucro que segundo dizem foram fabricados em Israel, a paz anda de mãos dadas com o inimigo. Seis candeeiros com duas lâmpadas cada suportados por setenta e nove transversais seguram o tecto. Um dia vai cair! Não sabemos quando mas vai. Tudo o que sobe desce e eles já estão lá há algum tempo. Um dia vai chegar a hora deles, se calhar mais depressa do que a nossa, que se perdeu. Lá vem o zangão outra vez. As paredes suam "Amo-te" escritas em várias caligrafias, amores que morreram antes de nascer. O zangão não acredita que também ele passou ao lado. Um satélite com asas descreve círculos perfeitos gozando a sua vida curta, vai morrer vítima de uma mão furiosa que não admite interrupções. Maciço, gera dúvidas, como se escreve isto? De alguma maneira há-de ser. Quem tira este cheiro a alcatrão que reveste o telhado, incomoda-me, preferia um qualquer verniz de uma mulher bonita que pintasse as unhas ao som do nosso desespero aqui.
Quase a faltar um ano para a boda, a Maria Guinot vai ensaiando ao piano os acordes de "Silêncio e tanta gente", tem de estar tudo certinho porque o noivo merece. Também trocava a minha vida por um dia de ilusão. Felicidades parece ela dizer baixinho, oxalá isso ajudasse a passar o tempo! Continuamos a contabilizar, as contas batem certo, aí vem ele outra vez. O porteiro queria uma T-shirt a dizer Staff, ficava bem, já sabe cruzar os braços, recebe um elogio do colega, só lhe faltam 30 cm e algum paleio. Tem esperança de lá chegar.
Um vegetariano reclama perante uma ementa mostruosamente carnívora, come batatas a murro que também faz bem à saúde, não adormeças enquanto não chega o teu pseudobacalhau! Relaxa, dá um passeio pela Quinta, tenta saber o nome dela, que eu também ainda não sei! E se de repente aparecesse aqui o Roberto Carlos a cantarolar, vestido de branco demodé? Será que o coração aguentava. A Rainha acha que não, o zangão, esse, tinha esperança que sim.
Munch desenha o "O Grito", expoente máximo de um qualquer sofrimento que podia ser o meu, a ampulheta vira, o fim está mais próximo, sabemos que sim, todas as horas ferem, a última mata, já diziam os romanos que todos consideram loucos. Lá fora a vida vai acontecendo e nós aqui, múmias de um qualquer museu egípcio, secas pelos tempos imemoriais.
Nunca me ensinaram que um bom vigilante assina sempre pelo lado direito, aprendi sozinho a ver os empregados de mesa. "Tell me more" repete uma Olivia Newton-John a quem o tempo não perdoou.
Uma maratona que se transforma nuns penosos cinquenta kms marcha! Acabou!"

Reflexões de um sonho que podia ter sido... e que foi mesmo!
Acabou!