Hoje o céu amanheceu nublado e sem muito para fazer dirigi-me para a Foz do Arelho, para a praia propriamente dita. No caminho passei por dezenas de pessoas que fziam exercício matinal na via pedonal que liga as Caldas da Rainha à Foz do Arelho. Uns sozinhos, outros aos pares, alguns à molhada, lá iam e eu não posso deixar de os invejar, pessoas que se levantam cedo para usufruir de um pouco de contacto com a natureza. Nunca consegui convencer-me a dedicar-me a 100 % ao desporto e por isso hoje dirigi-me para a praia com um certo espírito de vencedor.
Ainda havia nevoeiro na praia, ao ponto de tornar invísivel as Berlengas (daquelas coisas que gosto tanto de ver em dias de sol como de imaginar que lá estão em dias de neblina), resolvi caminhar em direcção à Aberta (nome corriqueiro dado ao ponto em que a praia acaba e deixa entrar a água salgada em direcção à Lagoa), contente por me ter lembrado de carregar o Ipod com uma selecção de clássicos musicais (finais de sessenta até ao electro por xunga dos eighties, sim, coisas tipo Erasure, Sandra, Falco outras que tais).
Uma das coisas que me fascina mais na música, é descobrir o sítio certo em que cada uma encaixa na minha vida. Às vezes é fácil, uma canção lembra-nos um dado acontecimento, local ou pessoa e nesse caso, está resolvido o problema. A canção X pertence ali e ponto final. O enigma está concluído. A dificuldade surge quando temos um a canção que gostamos e não assenta em nada da nossa vida. Mais grave, se essa canção for uma das nossas preferidas.
Serge Gainsbourg canta "Je t'aime, moi non plus", duas divas fizeram a parte vocal feminina. A primeira, Brigitte Bardot acabou por ser deixada para trás por se considerar que os seus gemidos na canção eram demasiado...reais. A versão com a Jane Birkin foi a que vingou. Mas eu, prefiro a versão com a antiga bomba sexual, actual protectora dos animais, a Sô Dona Bardot. E hoje, sentado, enquanto olhava para o mar e para dois ou três pescadores que tinham passado ali a noite à espera de coisa nenhuma, descobri o lugar da canção amargurada do Gainsbourg que muitos juram ser a sua canção de amor preferida (embora o tema verse precisamente o contrário). O lugar desta canção, para mim, passa a ser uma praia semi-vazia (já lá vai o tempo das praias desertas) dominada pela bruma. Pode ser a praia da Foz do Arelho ou uma outra qualquer dominada pela solidão. A praia pode ser o sítio mais solitário do mundo. E a música faz um jeito nesses lugares.
A ver de seguida: "Lost in translation" Nunca vi este filme de propósito até o comprar em dvd por ter a firme convicção que vai entrar para o Top10 dos filmes da minha vida!